domingo, 26 de agosto de 2007

Prevenção em residencias

Durante dois anos, a Policia Militar do Paraná realizou uma pesquisa relacionando criminalidade e planejamento urbano. Conduzida pelo Regimento de Policia Montada “Coronel Dulcídio”, foram pesquisados as 101 residências e os 100 pontos comerciais mais atacados por ladrões em Curitiba e entrevistados 287 criminosos presos. Conclusão: os aspectos arquitetônicos das cidades e suas moradias são itens importantes para a prevenção dos crimes. Saiba mais sobre este interessante assunto lendo a entrevista com o Coronel PM Roberson Luiz Bondaruk, coordenador do projeto.

Primeseg: Por que os fatores ambientais também podem ser determinantes para uma boa segurança pública?
Coronel PM Roberson: O resultado da pesquisa prova o que vem sendo estudado há muito tempo fora do país, mas que ainda não é conhecido no Brasil: as casas com mais de um arrombamento tem algumas particularidades, o que mostra que a arquitetura é determinante na escolha do criminoso.

Primeseg: Pode nos explicar melhor esta afirmação?
Coronel PM Roberson: Veja o que descobrimos durante a pesquisa: ao contrário do que se pensa comumente, 71% dos criminosos preferem assaltar residências com muros, contra 29%, com grades. Isso ocorre, segundo os próprios presos, porque o muro impede que alguém os veja de fora da propriedade. Sobre que tipo de fatores facilita a prática de furto, 21% afirmaram preferir locais próximos a terrenos baldios; 20% locais com pouca luminosidade e 18% áreas com cantos escuros.

Primeseg: Pode nos detalhar mais sobre este ponto da pesquisa?
Coronel PM Roberson: Pelo questionário realizado nas 101 residências, descobriu-se que em 60% delas o método empregado pelo criminoso foi a escalada. Apenas em 2% houve uso de chaves falsas. Outro dado importante é que 12% das casas foram assaltadas porque o próprio morador deixou o portão aberto.

Primeseg: O que este trabalha mostra para a população em geral?
Coronel PM Roberson: Os dados da pesquisa nos mostram que tomar providências simples, como, por exemplo, dificultar a escalada para os ladrões, faria com que o índice de criminalidade diminuísse muito. Cerca de 70% dos crimes que a polícia atende são de baixo potencial ofensivo. Pequenos furtos ou roubos, se fossem resolvidos através da arquitetura ou do comportamento, eliminando a oportunidade, poderíamos, em tese, eliminar 70% da criminalidade.

Primeseg: Quer dizer que a arquitetura também pode ser considerada como aliada na prevenção da criminalidade?
Coronel PM Roberson: Claro. Este método de prevenção, chamado de arquitetura contra o crime, já é aplicado há mais de 40 anos em diversos países. O Paraná pretende trazer para o Brasil essa tecnologia de segurança pública. A estrutura de um banco, por exemplo, segue rigorosamente a arquitetura contra o crime. A gente quer que o comerciante não precise ser integrante de um grande grupo financeiro para ter acesso a essa tecnologia.

Primeseg: Como assim?
Coronel PM Roberson: Esse tipo de prevenção ao crime passa necessariamente por outras áreas, não vinculadas, costumeiramente, à de segurança pública. Está comprovado que, quando as medidas de arquitetura contra o crime são incluídas no projeto, elas saem a custo zero. Já se o engenheiro, arquiteto ou planejador urbano não souber isso, quando a casa for violada vai representar gasto.

Primeseg: Para implantar este pensamento na sociedade brasileira, o que já está sendo feito de concreto?
Coronel PM Roberson: Para divulgar estas técnicas específicas de prevenção contra o crime, a Polícia Militar já entrou em contato com o CREA-PR, universidades e escolas de Engenharia e Arquitetura e com a Associação Comercial do Paraná. Como resultado deste trabalho, a Universidade Federal do Paraná já definiu a criação de um núcleo permanente de pesquisa sobre a arquitetura contra o crime. No CREA-PR está em elaboração o primeiro curso de arquitetura contra o crime à distância. E a Associação Comercial do Paraná já aprovou a proposta, feita pela polícia, da criação de uma câmara técnica de arquitetura contra o crime.

Primeseg: E o que virá depois?
Coronel PM Roberson: O próximo passo é que esta preocupação seja levada para as ruas, casas e prédios. Há ainda a intenção de que isso seja incluído no plano diretor das cidades. Se os códigos cobram segurança contra sinistros, como acidentes e incêndios, queremos que preveja também a segurança antidelito.

Primeseg: Mas isto não irá sobrecarregar mais o cidadão?
Coronel PM Roberson: Não, muito pelo contrário. A proposta da Polícia do Paraná segue a filosofia da Polícia Comunitária, ou seja, fortalecer a participação da comunidade na segurança de forma simples e barata. Não queremos que a comunidade faça o trabalho de polícia, mas sim criar uma cultura da prevenção. Com todas as facilidades que a estrutura hoje oferece é muito fácil a ação de criminosos. Dificultando este aspecto, o cidadão estará automaticamente dando sua colaboração para a prevenção da criminalidade.

Fonte: Belgo Cercas e Cia.

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