Um dos grandes desafios da agenda política na América Latina é a reforma do setor de segurança. As jovens democracias latino-americanas devem se confrontar, por um lado, com um passado marcado pelas ditaduras e os conflitos que provocaram uma grande desconfiança na sociedade civil sobre o papel da polícia e do Estado nas questões de segurança e, por outro lado, com o contexto atual que assinala à América Latina como a região mais violenta do mundo.
Uma primeira radiografia dessa violência nos apresenta cifras alarmantes, pois 42% dos homicídios do mundo inteiro se concentram na região - e o custo econômico que esta violência gera para os países latino-americanos é estimado em 14% do seu PIB anual, conforme os dados do Banco Interamericano de Desenvolvimento. A violência com e entre os jovens é uma das formas de violência mais visíveis e que mais impacto gera socialmente. Quando falamos destes jovens, referimo-nos majoritariamente a homens entre 15 e 24 anos de idade, marginalizados socialmente e com histórias de vida complexas.
Os meios de comunicação têm um papel decisivo na criminalização da juventude, destacando atos de violência protagonizados por jovens. Esta presença midiática, que facilmente se converte em pressão social e que gera a necessidade de dar respostas rápidas a problemas complexos tem levado, em muitos casos, a ter os jovens como alvo das reações governamentais. No entanto, em seus efeitos práticos, estas reações têm se materializado em medidas tais como a redução da idade penal, políticas de "mão firme" e de tolerância zero que, na maioria dos casos, longe de sugerir uma solução séria e firme para o problema, tem contribuído para agravar a situação.
É este, sem dúvida, o contexto regional onde devemos colocar um dos principais desafios que devem ser abordados em todo processo de reforma do setor de segurança: a relação entre a polícia e os jovens e as percepções sociais destes coletivos que viemos construindo socialmente.
Primeiras idéias para a abordagem da relação entre jovens e polícia
Toda (boa) política que queira realmente aprofundar-se na mudança da situação de insegurança e violência deve, desde o início, abordar uma análise integral do que, por que, quem, quando e como.
Se nos referirmos a um item preciso desta complexa situação, tal como pode ser a questão da juventude, várias reflexões podem ser formuladas. Em primeiro lugar, é necessário diferenciar entre infância (menores de 18 anos) e juventude (menores de 24 anos). Além de diferenças legais (a infância está protegida por uma série de ferramentas nacionais e internacionais), também existem diferenças substanciais em relação à vinculação com o crime.
Se é certo que os jovens – especialmente os homens - são o principal grupo de risco como vítima da violência, ao mesmo tempo em que constituem a principal faixa etária na qual se encontram os agressores 2, isto não é o mesmo do que se falar de infância. Diferentemente dos jovens, as crianças são essencialmente vítimas e poucas vezes vitimizadores 3. Utilizando estatísticas de incidência policial, a presença de agressores menores de 18 anos nos países da América Latina é bem menor (cerca de 4% dos presos 4). No entanto, é o grupo da população que sofre de maneira mais direta as medidas punitivas, como a diminuição da idade penal ou as políticas de "mão firme". Medidas essas que estão baseadas em uma história particular e no excepcional, o que atenta contra a idéia de justiça. Além disso, não servem para mitigar o problema (já que a incidência deste grupo da população é baixa).
Em escala internacional, existem três instrumentos internacionais das Nações Unidas que estabelecem um primeiro quadro que pode ser de ajuda para definir a relação entre polícia e jovens. Estes documentos são: o Estatuto dos Direitos da Criança, que estabelece a doutrina de sua proteção integral - tanto legal quanto social -, e dois documentos não vinculantes que tratam sobre a delinqüência juvenil e a necessidade dos agentes de polícia que trabalham com crianças e jovens receberem uma capacitação especial, constituindo-se em contingentes especiais da polícia com essa finalidade (regra 12.1).
Por sua vez, as Diretrizes das Nações Unidas para a Prevenção da Delinqüência Juvenil (Diretrizes de Riad), que foram criadas para prevenir de forma eficaz a delinqüência juvenil, também reafirmam a necessidade de capacitação do pessoal que faz cumprir a lei para que possam atender às necessidades especiais dos jovens (artigo 58) 5.
Cara
A América Latina conta com bons exemplos de como diversos corpos de polícia têm aprendido a lidar com a violência juvenil de um modo construtivo e eficaz. A maioria dessas experiências tem como base de trabalho um paradigma de polícia comunitária.
A tarefa policial com participação da comunidade tem se convertido em uma estratégia importante de aplicação da lei para combater a violência juvenil e outros problemas criminais em diversas partes do mundo. A mesma pode adotar muitas formas, mas seus ingredientes essenciais são a criação de associações comunitárias e a gestão dos problemas da comunidade. Por exemplo, em alguns programas, a polícia colabora com profissionais da saúde mental para identificar e referenciar os serviços pertinentes para os jovens que tenham presenciado, experimentado ou cometido atos de violência. Isto lhes proporciona um adestramento especial e os vincula – em uma etapa inicial de desenvolvimento - aos profissionais da saúde mental apropriados. Ainda não foi determinada a eficácia desse tipo de programas, mas parecem ter um enfoque útil. Algumas experiências desta lógica são os casos do Rio de Janeiro (Brasil) ou da Nicarágua, comentados a seguir.
O Grupo de Policiamento em Áreas Especiais (GPae) do Rio de Janeiro foi criado em 2000 como um corpo especial dentro da Polícia Militar, que estabelecia um modelo policial baseado nas seguintes finalidades: a) ser mais pró-ativo do que reativo; b) propiciar e testar um policiamento comunitário no Rio de Janeiro e c) criar órgãos mistos de representação e mediação permanente, como o Conselho Comunitário sobre Segurança e Cidadania.
Os principais objetivos do GPae eram promover o policiamento público regular em favelas ou áreas críticas pela prevenção do crime, centrando-se na redução dos fatores de risco para crianças e jovens; na redução do medo, através de um esforço constante de interação com a força policial e da prevenção e repressão das atividades ilegais da polícia (falta de disciplina; convivência com a criminalidade, corrupção, abuso de poder, etc.) 6.
O Departamento de Assuntos Juvenis da Polícia Nacional da Nicarágua é coordenado pela Polícia Nacional. Este programa é considerado um dos mais exitosos do continente na prevenção e redução da violência relacionada com gangues. O programa consiste em trabalhar o fenômeno das gangues a partir das relações comunitárias e da gestão interinstitucional. Mais de mil policiais trabalham nessa área realizando trabalho preventivo com as famílias, a comunidade e a escola. A polícia, com um caráter pró-ativo, trabalha pela inserção social dos jovens em risco, tendo conseguido uma transformação destes jovens das gangues em agentes sociais e comunitários 7.
Coroa
O caso mais evidente de medidas polêmicas e questionadas na sua tentativa de reduzir a violência juvenil pode ser encontrado nas políticas de "mão firme" na América Central. Estas medidas, longe de terem reduzido os níveis de incidência de violência das gangues juvenis, têm contribuído mais para sua evolução e sofisticação. Dado que no nível operacional estas medidas consistiam na prisão dos indivíduos suspeitos de pertencer a uma mara (sob critérios basicamente estéticos, por levar certas tatuagens ou certa vestimenta), as direções destas organizações estabeleceram que seus novos membros abandonassem essas práticas, tornando sua identificação mais difícil.
Os códigos internos têm se endurecido fechando as portas que existiam anteriormente, acabando com os processos de diálogo e mediação que antes ocorriam entre algumas lideranças comunitárias e religiosas, e adquirindo táticas de confronto menos expostas, mais sofisticadas e com maior poder de fogo. A relação com o grande crime organizado (sobretudo tráfico de drogas e de armas) também tem crescido como resposta a estas medidas, apesar de nem todas as clickas (unidades operacionais das maras) manterem relação com o crime organizado 8.
Um longo caminho a seguir
Em todo caso, as respostas que classicamente foram dadas à delinqüência juvenil têm tido escassos resultados positivos. A repressão, agindo apenas sobre os efeitos e as expressões mais visíveis do problema, sem mergulhar nas causas profundas que os geram, tendem a simplificar um problema complexo e, portanto, difícil de ser abordado.
O tradicional conceito de segurança tem sido redefinido com o objetivo de incluir não só a estabilidade e a não-agressão aos Estados (teoria predominante até os anos 90), mas também à segurança e ao bem-estar das pessoas. Isso implica em um reconhecimento do vínculo entre segurança, desenvolvimento e governabilidade, sendo que não se pode considerar nenhum desses conceitos isoladamente sem o conjunto dos outros 9. Executada com eficácia e sob uma prática de transparência e de prestação de contas públicas, o setor de segurança contribui para a redução da violência e, portanto, para uma melhor governabilidade e um próspero desenvolvimento.
Contudo, as pessoas que trabalham temas relacionados à segurança, em algumas ocasiões, esquecem que para toda resposta é necessária uma reflexão pausada. É necessário ir até o melhor e não até o mais fácil. Isto pode ser estendido tanto aos políticos, aos corpos de segurança e às ONGs, quanto aos formadores de opinião. Desmistificar o fato da juventude ser sinônimo de violência e de toda a polícia ser corrupta é uma tarefa que todos temos para frente. Não podemos generalizar nem criminalizar todo um coletivo pela ação de pessoas individuais. O desafio da polícia na América Latina é recuperar o foco de seu trabalho - servir e proteger - recuperando os valores nos quais baseia-se a fundação das polícias modernas. O caminho é longo e com numerosos desafios, mas não é impossível.
Fonte: Comunidade Segura